Caratinga, MG. A vida da gente é feita de lembranças. Eu coleciono lembranças. Não tenho patrimônio nenhum a não ser minhas lembranças. Não me lembro do primeiro beijo, mas sim do primeiro mais gostoso. Me lembro de quando vi a capa do Revolver, dos Beatles, e achei que aqueles desenhos tinham sido feitos pelos amigos da minha tia Lidia, que estavam com ela ouvindo som na radiola da sala da casa da minha vó.
Me lembro o dia em que o Marcelo e o Camaleão me colocaram no tambor de lixo e foram rolando até a ponte da rua em que morávamos, mas não conseguiram me jogar no rio porque a mãe do Camaleão ouviu meus gritos e berrou lá da porta da casa dela LEXAAAAAAAAANDRE! Isso foi quando tínhamos 5 ou 6 anos de idade. Somos melhores amigos até hoje. Meus pais brigavam comigo quando eu fui morar fora e, ao visitar Caratinga, jogava a mochila na sala e só aparecia no dia de ir embora pra pegar. Meus amigos são sensacionais. Um grande amigo que se foi, e que marca bastante esta história, escreveu sobre isto em uma canção, onde começa dizendo “nada como estar com aqueles amigos” e segue tecendo uma ode à família que escolhemos.
Gravei recentemente um show recheado destas canções, que fazíamos na adolescência e achávamos que estávamos à altura de competir nos festivais – não estávamos, pelo menos pras comissões julgadoras. Mas ó, veja só, quando fomos gravar – está no nosso youtube e no DVD da Jararaca – o maestro que nos ajudou no show ficou encantado com as canções, e ele não estava fazendo média. Vejam vocês mesmos. Tudo na Jararaca Alegre fala de amizade. Fiz parte de uma turma que foi jovem nos anos 70/80, quando as coisas que aborreciam nossos pais era a gente ficar até de madrugada na rua fazendo música, beijando na boca e fumando uns baseadinhos. Quem dera se os pais de hoje só tivessem isso para sofrer.
A gente fez parte de uma geração que apreciava conteúdo. Onde um cara feio como eu tinha chance com as meninas porque sabia conversar sobre música, cinema e, de quebra, ainda sabia desenhar. Aliás, foi isso que me salvou de ser mais uma vítima da timidez mórbida. Eu era tão tímido, que desenvolvi uma gagueira nervosa que tornava minha vida uma desgraça. Bastava alguém me dar atenção que eu começava a gaguejar. Pra responder chamada então, nem se fala. Eu ficava me preparando à medida em que chegava minha vez de responder “presente” e, quando chegava, eu agarrava e só respondia uns 5 nomes depois.
Tomei muita falta, aliás tomei bomba uma vez por falta. Mas ali foi por falta mesmo, matei aula demais pra vagabundar com meus colegas. Vagabundar no caso era ir pro anfiteatro do colégio estadual bolar esquetes para apresentar no próximo grêmio, ou então fazer nosso jornalzinho “O Curupira”, que depois virou “Um barato que não sai caro” e finalmente “A Jararaca Alegre”, que anteriormente foi uma personagem destes dois outros periódicos estudantis feitos nascoxamente no mimeógrafo. O jornalzinho começou despretensioso mas nossa persistência em editá-lo com a frequência de um Pasquim – aliás, nossa grande referência na época, ao lado da MAD – fez com que ele ganhasse credibilidade e ultrapassasse os portões do Estadual, para circular no N. Sra. do Carmo, N. Sra. das Graças e Colégio Caratinga. No Polivalente não circulou porque lá era muito longe.
E veio o Jararaca Som Discotheque para embalar nossas festinhas nos terraços, tomando gosto pela produção de eventos, até virar Transarte Produções nos anos 80/90 e fazer shows bombásticos na cidade – bombásticos pelo tamanho dos prejuízos eu tínhamos de nos virar pra pagar depois. Foda-se, ficaram as lembranças. Super lembranças. Sexo (um pouco), Drogas (uai…) e Rock and Roll (muito, mas muito mesmo). Até que eu me tornei alcoólatra, mas graças a Deus e aos amigos e à família e a uma instituição chamada Associação Mãe Admirável, aqui estou, sóbrio há 24 anos (e contando). Segundo meu amigo Marcelo – aquele que queria me jogar no rio num latão de lixo – “o Camilo só parou de beber pra continuar fazendo todo o resto”.
Acho que ele está um pouco certo. Como eu nunca consegui parar de fazer a Jararaca, mesmo depois que a turma debandou e foi fazer coisas mais rentáveis, do tipo que dá pra sustentar uma família, eu continuei fazendo, recrutando novos colaboradores entre os grandes artistas que tive a honra de conhecer e me tornar amigo – aliás, o primeiro requisito para fazer parte do expediente da J. A. é ser meu amigo. A Jararaca hoje voltou ao velho padrão jornal, mas com uma diagramação bonita, impressão de primeira, conteúdo diluído e que podemos editar mensamente, ao invés de uma edição de luxo mas somente uma vez por ano.
O espírito continua o mesmo: só publicamos coisas que a gente gostaria de ler. Conheça esta história nesse site novinho que estamos inaugurando, iniciativa de minha filha Juliana Senra, diretora de arte maravilhosa, com o auxilio luxuoso do Estúdio Letras. Por exemplo, no nosso youtube tem um documentário produzido quando fizemos 40 anos que conta esta história com imagens até de super 8 produzidas nos anos 70 pois um dos nossos tinha uma câmera! Tem também um show com as músicas que fizemos naquela época e nunca tinham sido registradas. No site, disponibilizamos todas as edições que temos em arquivo para leitura ou até mesmo download.
E por todo canto nossa história se entremeia com o que estamos fazendo hoje. É uma história muito bonita, que achamos gostoso contar e resgatar sempre que pertinente. Podem baixar também o livro “O Baú da Jararaca Alegre”, onde eu conto muitas destas histórias sem inventar mas parece inventado – e só não conto mais porque estou esperando alguns dos personagens morrerem pra não ter problema na justiça.

ASSISTIR DOC “O DVD DA JARARACA ALEGRE”
https://www.youtube.com/watch?v=J3-bOeKuInI&t=11s
ASSISTIR SHOW “RODA DE VIOLA”
https://www.youtube.com/watch?v=XcATSyP5RW4&t=1913s
LER “O BAÚ DA JARARACA ALEGRE”
https://jararacaalegre.com.br/books/edicao-especial-bau-2005/